Por mais de vinte anos a coleção Lugares Mágicos, da editora Elipse, permaneceu oculta. Segundo comentários de bibliófilos e colecionadores, os quase mil volumes dessa edição única foram guardados em um armário de ferro nos subsolos da livraria da Dona Eura, em Brasília, e ao que parece havia um acordo com os editores para que os livros não fossem divulgados ou vendidos. Por causa de um rearranjo desses subterrâneos, em fins de 1998 ou meados de 1999 o armário foi removido e dele e de seu conteúdo nunca mais se soube. São igualmente escassas informações sobre o autor ou autores da obra, que é de doze volumes in oitavo menor (17,0 x 10,8 cm), todos contendo assinalações de locais considerados mágicos (ou encantados) no Brasil.

Em 2007, encontrei um exemplar do sétimo volume da coleção em uma barraca de livros usados no Setor Bancário Sul da cidade, e reproduzo nesta publicação sua capa. Na época segui as precisas indicações informadas no livro e visitei, nas cercanias da cidade, certos mananciais, grotas e cachoeiras, ravinas e paredões, passagens por entre veredas e até mesmo algumas edificações (a maioria atualmente em ruínas), e confirmo os locais mencionados. Não concordo que o livro seja um guia de incursão segura, conforme indicado na capa. Os moradores de Cafuringa, um lugarejo próximo à Vereda das Almécegas, certamente concordarão comigo.

A seguir, comento trechos do sétimo volume da Coleção Lugares Mágicos, e apresento fotos que, à época, fiz de alguns locais nele indicados. 

A ALDEIA DOS EXILADOS DO AMANHECER

Uma pesquisa realizada em 1979 pelo Núcleo de Estudos Parapsicológicos da Universidade de Brasília, enumerou na ocasião 94 locais de culto esotérico na cidade, e 323 em sua periferia. Foi a primeira vez que a Aldeia dos Exilados do Amanhecer apareceu em algum documento de interesse histórico. Os dados são esparsos mas ajudam a revelar pistas sobre a origem dos Mestres Ascensionados de Capella, dos ciganos terapeutas, do Vale do Amanhecer e da comunidade dissidente reunida em torno da figura carismática do professor Mário Sassi. Comunidade de inspiração kardecista e caráter milenarista, a Aldeia é considerada por seus habitantes “uma reunião de espíritos” que terão de cumprir a lei do retorno. No caso, a missão de voltar à Constelação de Capella, sua pátria de origem. A Aldeia está localizada a aproximadamente vinte quilômetros de Brasília e é um lugar de trabalho ritual e terapêutico. A pesquisa feita nos anos 1970 revela que nessa época a Aldeia contava com 86 residentes fixos, divididos em vinte e nove famílias, e uma população flutuante de cerca de 250 freqüentadores, visitantes por ocasião dos Festivais da Nova Era. Hoje vivem ao todo na Aldeia dos Exilados do Amanhecer dezoito pessoas, sendo apenas duas da casta sacerdotal das Ninfas e Centuriões de Capella.

A VIGIA DA MIRAÇÃO

A Vigia da Miração

A Vigia da Miração foi uma edificação no interior da propriedade Refúgio dos Peregrinos de Capella – uma espécie de retiro ou monastério, freqüentado somente por acólitos do Círculo Devocional dos Peregrinos de Capella. Quando a visitei, a construção encontrava-se muito bem preservada e com frequência era utilizada. Da varanda principal era possível avistar-se o vale Zen, onde estão localizados o Pequeno e o Grande Monte Zen, lugares de meditação e culto durante as peregrinações dos Festivais da Nova Era de Capella. Também é dali avistado o Mirante de Maytréia, onde os adeptos da seita se reúnem para a prática de seus rituais. Fui informado de que é na Vigia da Miração que acontecem as cerimônias nas quais é distribuído o Vinho da Miração, uma substância ritual só acessível aos membros da congregação.

A ÁRVORE SHIVA-NATARAJA

Árvore com cerrado ao fundo

No interior de um domo da cidade dos Exilados do Amanhecer encontrei um pequeno altar com um retrato emoldurado da Árvore Shiva-Nataraja, demonstrando a reverência que os exilados têm por ela. Verifiquei que o local é mencionado no Guia e pedi para conhece-lo, privilégio que me foi concedido somente alguns meses depois. Soube por meus anfitriões, que em certas ocasiões as cerimônias ali realizadas incluem danças rituais Nataraj para o despertar da consciência e a expansão dos sentidos; que em determinados períodos do ano, durante o plenilúnio, somente as mulheres se aproximam da árvore, e que nos eclipses da lua o lugar é guardado por seguranças armados. Em uma dessas ocasiões noteis com estranheza que os guardas estavam voltados na direção da árvore, como se a ela vigiassem, ao invés de guarda-la. Na noite em que os exilados me permitiram presenciar uma cerimônia, houve uma fogueira nas proximidades da árvore, foram realizadas danças ciganas e oferendas ao deus dançarino.

A VEREDA DAS ALMÉCEGAS

Num aprazível atrativo natural situado no caminho da cidade de Brazlândia, no Distrito Federal, encontra-se a Vereda das Almécegas, que por razões de promoção turística teve seu nome alterado para Caminho da Cachoeira Rainha. O verdadeiro nome do lugar é Vereda das Almas Cegas. Ali, uma densa mata de galeria encobre córregos tributários do Ribeirão Dois Irmãos, emergindo em buritizais, poços e corredeiras que conduzem à exuberante cachoeira. Tradições locais verificam que durante o ciclo do ouro nesta região do Goiás era comum a prática de cegar os escravos bateadores, para que retornando aos povoados não revelassem a localização de veios de ouro. A informação é refutada por historiadores, porém a fama do lugar dá margem a dúvidas sobre com quem está a razão. Seja como for, os moradores de Cafuringa evitam circular nos arredores da vereda ou perto da cachoeira, principalmente nas quintas-feiras santas ou em vésperas do dia de finados.

O CAMINHO DA ORLA DA MATA

Trecho do Caminho da Orla da Mata

Versipélio era a designação romana para a transformação do ser humano em qualquer tipo de animal ou pássaro, não apenas em lobo. Plínio, em sua História Natural, revela o meio pelo qual um homem se transformou num licântropo por nove anos. Segundo esse relato, algumas medidas devem ser observadas: despir-se, deixar as roupas sobre cinzas e fazer uma certa travessia numa certa data – tanto o dia quanto o local são determinantes para o sucesso da operação. A certa altura do sétimo volume da coleção Lugares Mágicos encontrei esta alarmante notícia. Nas imediações do que ao tempo das estradas reais de Goiás foi a Real Estrebaria da Contagem há um caminho. Margeia a ravina recoberta de densa vegetação nativa, ligando dois pontos sem importância em meio aos terrenos baldios do suntuoso Setor de Mansões do Lago Norte, na Serrinha do Paranoá, em Brasília. Local ermo e evitado pelos moradores da região, serve somente a uns poucos temerários que desejam encurtar caminho, ou àqueles que buscam o versipélio. De acordo com Plutarco, na tradição romana das Lupercais (a festa dos lobos) é o funesto 15 de fevereiro – de februare, purificar – o dia escolhido para a februata, a corrida dos lobos. O sétimo exemplar de Lugares Mágicos assinala, ainda, que no hemisfério sul esta data corresponde ao não menos infeliz 13 de agosto. No Brasil, a superstição que aponta agosto como o “mês do cachorro louco” pouco tem a ver com os surtos de cólera canina, que podem ocorrer em qualquer época do ano, porém indica aos interessados o momento propício à prática do licantropismo.

LT 15º35’00” LG 47º58’30”

Entrada da caverna

Segundo o antropólogo argentino Daniel Granada, foi por volta do ano 1000 que nas cidades de Salamanca, Córdoba e Toledo, feiticeiros mouros introduziram no mundo cristão certas práticas de magia gentílica, realizadas no interior de cavernas e lugares subterrâneos. Todavia, a tradição de cerros encantados e grutas mágicas não têm pátria original, ocorrendo em todas as culturas em seu estado de infância: no Egito de Toth, na Irlanda de São Patrício, em Trofônio na Grécia, nas barrancas do Rio da Prata. O acesso a esses lugares é sempre vedado. Para merecer entrar neles é necessário revestir-se de coragem e desapego à vida. Provas terríveis, obstáculos intransponíveis e a recompensa de impensáveis tesouros aguardam os que ali se arriscam. Foi assim, dizem, que o general Bento Manuel adquiriu a sorte que o favoreceu nos cenários desesperados da Guerra dos Farrapos. No Centro Oeste brasileiro esses lugares se chamam “bocainas” e, em geral, ficam nos pés-de-serra, no fundo das ravinas, nos paredões. Quem se dirige ao município de Padre Bernardo, em Goiás, costeando a chapada mais a oeste do quadrilátero Cruls, se depara com um cenário raro de falésias. Numa delas, voltada para o nascente está a salamanca – a caverna mágica.